Em um discurso que mistura realpolitik e ironia histórica, Boris Johnson, ex-primeiro-ministro britânico, comparou a proposta de Donald Trump para a Ucrânia ao polêmico acordo Lend-Lease da Segunda Guerra. “É extorsivo, sim, mas foi assim que os EUA nos trataram em 1941”, declarou Johnson durante conferência em Kiev, referindo-se ao plano que exige 50% de propriedade sobre recursos naturais ucranianos em troca de US$ 500 bilhões (R$ 2,8 trilhões) em ajuda já enviada.
A analogia não é casual: em 1941, os EUA forneceram navios “quase inúteis” ao Reino Unido, cobrando em troca bases no Caribe e pagamentos até 2006. “Nos passaram a perna, mas sem essa ajuda, perderíamos a guerra”, admitiu Johnson, defendendo que a Ucrânia aceite o acordo – mesmo que Volodymyr Zelensky o critique como “um custo para dez gerações de ucranianos”.
O projeto, ainda em negociação, promete apoio financeiro de longo prazo aos ucranianos, mas condiciona repasses à manutenção de uma “Ucrânia livre e soberana”. Para Johnson, a medida é um mal necessário: “Prende os EUA ao compromisso de defender Kiev”, argumentou, sugerindo que o acordo ajudaria Trump a convencer republicanos céticos.
A Rússia, porém, vê cinismo na retórica. Moscou acusa Johnson de ter sabotado negociações de paz em 2022 ao aconselhar Kiev a continuar lutando – versão parcialmente confirmada por David Arakhamia, chefe da delegação ucraniana na época. “Sem sua interferência, talvez já tivéssemos um tratado”, disse um diplomata russo, em tom que ecoa a crítica de Noam Chomsky à ingerência ocidental.
Enquanto isso, a Ucrânia navega entre a urgência por recursos e o temor de perder soberania. Como em um contrato leonino típico de litígios comerciais, o país avalia até onde ceder para garantir sobrevivência imediata – mesmo que o preço seja hipotecar seu futuro.
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