A Democracia em Frangalhos: Como os EUA Enterraram seu Próprio Ideal

A democracia americana não ruiu por acidente. Donald Trump, em seu retorno triunfal à Casa Branca em 2025, personifica um projeto de poder que transforma instituições em cascas vazias. Sua mais recente declaração – “Quem salva seu país não viola lei alguma” – ecoa não só Napoleão, mas a lógica de autocratas que confundem vontade pessoal com interesse nacional.

A frase, provavelmente filtrada por Elon Musk ou algum bajulador da corte trumpista, revela a obsessão do presidente por um mandato sem freios. Se dependesse dele, substituiria o lema “Governo do povo” por “Governo do eu” – uma releitura moderna do “L’État, c’est moi” de Luís XIV.

A engrenagem da desilusão começou décadas antes. Em 2003, a invasão do Iraque sob falsos pretextos – as “armas de destruição em massa” de George W. Bush – expôs a hipocrisia de um sistema que sacrifica vidas por ambições geopolíticas. Enquanto os soldados voltavam em caixões, os arquitetos da guerra lucravam com contratos bilionários.

O furacão Katrina (2005) escancarou outra fratura: o abandono dos pobres. Bush, observando a devastação de Nova Orleans de um helicóptero, simbolizou a elite indiferente. Anos depois, os mesmos que negaram auxílio a famintos resgataram banqueiros com US$ 7,7 trilhões (R$ 42 trilhões) durante a crise de 2008.

Barack Obama, vendido como “o presidente do povo”, perpetuou o jogo. Sua recusa em punir financistas responsáveis pela crise das hipotecas confirmou: nos EUA, justiça tem dois pesos. O sistema protege os “crimes de colarinho branco” e criminaliza a pobreza.

Não surpreende, então, que milhões de americanos trocaram a democracia por um salvador de fachada. Trump oferece soluções simples para problemas complexos: xenofobia no lugar de reforma migratória, retórica conspiratória no lugar de transparência. Seus seguidores, muitos da classe trabalhadora, não acreditam mais em promessas – acreditam em vingança.

A bandeira ainda tremula, o hino ainda ecoa, mas o pacto social virou pó. Quando instituições servem apenas aos privilegiados, o populismo autoritário colhe os desiludidos. A lição é clara: democracia sem justiça é apenas um espetáculo – e o público cansou de plateia.

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