"Ainda Estamos Aqui": Filme sobre ditadura brasileira concorre ao Oscar em meio a embates pela memória
O drama "Eu Ainda Estou Aqui" – primeiro filme brasileiro em português indicado ao Oscar de Melhor Filme – tornou-se um símbolo da luta contra o apagamento histórico no Brasil. Baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, a produção dirigida por Walter Salles reconstitui o desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva durante a ditadura militar (1964-1985), explorando o vazio deixado por 434 mortos oficiais (e até 10 mil estimados).
Na cerimônia de 8 de janeiro em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ecoou o título do filme ao declarar "Ainda estamos aqui" – frase que ressoou como desafio aos ataques golpistas de 2023, quando apoiadores de Jair Bolsonaro invadiram os Três Poderes. Para o jornalista Lucas Figueiredo, autor de obras sobre o regime militar, a impunidade histórica alimentou a ousadia dos insurgentes: "O Exército ainda se julga no direito de dar golpes no século XXI".
Ivo Herzog, filho do jornalista Vladimir Herzog (torturado e morto em 1975), vê no filme um rompedor de silêncios: "Trouxe indignação a quem não viveu essa história". A obra acompanha Eunice Paiva (interpretada por Fernanda Torres) em sua busca por justiça – jornada que espelha a de Liniane Haag Brum, cujo tio Cilon Cunha Brum desapareceu na Guerrilha do Araguaia (1973-1974).
Enquanto o filme arrecadava R$ 23,8 milhões e mobilizava 4,1 milhões de espectadores, a Justiça brasileira dava passos tímidos: em fevereiro de 2024, o procurador-geral Paulo Gonet denunciou Bolsonaro e 33 aliados por tentativa de golpe. Já o ministro Flávio Dino citou o longa ao defender que desaparecimentos políticos são crimes permanentes, não abarcados pela Lei da Anistia de 1979.
A batalha entre memória e apagamento revela um Brasil dividido. De um lado, a revisão da Lei da Anistia e os novos atestados de óbito (que agora citam "violência estatal"). De outro, o desmonte de comissões da verdade sob Bolsonaro e o medo de "inflamar tensões" que levou Lula a evitar eventos sobre os 60 anos do golpe. Como alerta Herzog: "O Brasil pratica uma política do esquecimento".
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