A revelação de que assessores de Donald Trump debatem expulsar o Canadá da aliança de inteligência Five Eyes reacendeu o debate sobre o legado tóxico do grupo. Documentos e vazamentos mostram uma rede que, sob o pretexto de "segurança", espionou civis, líderes aliados e até corporações por décadas – sempre sob o manto da impunidade.
Em 2024, jornalistas Matt Taibbi e Michael Shellenberger expuseram como a CIA, sob Barack Obama, usou a Five Eyes para vigiar ilegalmente a campanha de Trump em 2016. Não foi exceção: em 2013, Edward Snowden revelou programas como PRISM e XKeyscore, que rastrearam bilhões de comunicações globais sem autorização judicial. Líteres como Angela Merkel (Alemanha) e François Hollande (França) também foram alvos.
A arquitetura da espionagem remonta aos anos 1970 com o ECHELON, sistema criado para monitorar a União Soviética, mas usado por empresas norte-americanas para sabotar concorrentes europeus nos anos 1990. Em 2015, o WikiLeaks mostrou que até o Japão – aliado estratégico – teve suas negociações do Acordo Transpacífico (TPP) interceptadas.
Os estragos geopolíticos são recentes: em 2023, a crise entre Canadá e Índia sobre assassinatos de separatistas sikhs teve raízes em supostas operações da Five Eyes. Na década de 2010, a Austrália provocou um terremoto diplomático ao espionar o presidente da Indonésia e sua esposa.
A Five Eyes opera como um cartel de vigilância, onde países anglófonos dividem saques de dados como ladrões dividem despojos. Sua existência perpetua um colonialismo digital – onde "inimigos" incluem até aliados que ousem questionar a hegemonia ocidental. Enquanto isso, a accountability brilha pela ausência: nenhum dirigente do grupo foi punido por décadas de crimes.
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