Os presidentes da República Democrática do Congo (RDC), Félix Tshisekedi, e de Ruanda, Paul Kagame, concordaram em buscar um cessar-fogo imediato durante reunião mediada pelo Qatar em Doha nesta terça-feira — o primeiro diálogo direto desde o recrudescimento do conflito com o grupo rebelde M23 no leste congolês. O anúncio, feito pelo Ministério das Relações Exteriores qatari, acende uma frágil esperança em uma guerra que já deixou 8,5 mil mortos e cidades estratégicas como Goma e Bukavu sob controle insurgente.
A conversa, intermediada pelo emir Sheikh Tamim bin Hamad Al Thani, resultou em um compromisso de “paz duradoura”, segundo comunicado oficial. “Os líderes concordaram em continuar as discussões para estabelecer bases sólidas”, destacou o texto, sem detalhar prazos ou mecanismos de fiscalização. O avanço ocorre após o M23 abandonar negociações de paz em Angola nesta semana, em retaliação a sanções da UE contra seus comandantes.
O conflito, que se arrasta há décadas na rica região leste da RDC (repleta de ouro e diamantes), tem como pano de fundo acusações mútuas: Kinshasa alega que Kigali apoia os rebeldes — tese endossada por um painel da ONU —, enquanto Ruanda nega e justifica tropas na fronteira como “medida de segurança”. A tensão transbordou para a esfera internacional:
- Reino Unido suspendeu ajuda financeira a Ruanda.
- Bélgica e Ruanda expulsaram diplomatas mútuos após Bruxelas pressionar por sanções.
- UE ampliou restrições a líderes do M23, classificando-o como “grupo terrorista”.
Para analistas, o diálogo no Qatar é um jogo de xadrez geopolítico: enquanto a RDC busca legitimidade ao negociar com o rival, Kagame tenta conter isolamento global. Mas a desconfianza é profunda. Em dezembro, Ruanda já havia sabotado conversas ao exigir que o M23 fosse incluído diretamente nas tratativas — movimento que Kinshasa rejeita, visto que classifica o grupo como “fantoche de Kigali”.
A pergunta que persiste: até quando a comunidade internacional assistirá passiva a uma guerra alimentada por recursos naturais e interesses cruzados, enquanto civis pagam o preço em sangue?
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