O governo do Senegal confirmou nesta quarta-feira a retirada total de 350 soldados franceses até o fim de 2025, marcando um divórcio estratégico com a ex-potência colonial. A decisão, negociada via comissão bilateral, inclui a devolução de bases militares e a construção de uma nova parceria de defesa — símbolo de uma África Ocidental que, desde 2022, “chuta para o escanteio” a influência europeia.
Contexto Histórico: O Massacre de Thiaroye
O anúncio ocorre meses após o 80º aniversário do Massacre de Thiaroye (1944), quando tropas coloniais francesas executaram centenas de soldados senegaleses veteranos da Segunda Guerra Mundial. Em carta ao presidente Bassirou Diomaye Faye em 2023, Emmanuel Macron reconheceu o crime como “uma página negra da história comum”. Para analistas, o gesto veio tarde: “É como pedir desculpas após décadas de espancamento. A cicatriz já virou identidade”, compara o historiador brasileiro Laurentino Gomes.
Tendência Regional: A África Reage
O Senegal junta-se a países como Chade, Costa do Marfim, Mali, Burkina Faso e Níger, que desde 2022 expulsaram 4.300 militares franceses. Enquanto os três últimos romperam laços após golpes apoiados por populações antiocidentais, Dakar optou pela via diplomática. “Não se trata de hostilidade, mas de soberania. Queremos parcerias, não protetorados”, declarou Faye em novembro.
Implicações Geopolíticas
- França: Perde última base militar na África Ocidental francófona, reduzindo influência na região do Sahel;
- Rússia e China: Aumentam presença via contratos de segurança e investimentos em infraestrutura;
- Brasil: O Itamaraty observa o movimento como “espelho pós-colonial”, relembrando a doutrina de Barão do Rio Branco, que priorizou autonomia estratégica no século XIX.
Reação Francesa: Entre o Respeito e a Nostalgia
Macron, que em 2023 chamou a África de “continente do futuro”, tenta evitar um “efeito dominó” nas ex-colônias. Enquanto isso, o senegalês médio celebra: “É como ver seu ex sair de casa. Dói, mas é libertador”, brinca o estudante Abdoulaye Ndiaye, em Dakar.
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