A 'Bomba Atômica' Econômica: China Pode Usar Dívida de R$ 4,4 Trilhões dos EUA Como Arma na Guerra Tarifária Contra Trump?

No tenso confronto da guerra tarifária entre Estados Unidos e China, analistas debatem uma manobra de consequências potencialmente devastadoras: poderia Pequim usar sua maciça carteira de dívida dos EUA – os títulos do Tesouro americano – como uma "opção nuclear" econômica? A tensão está no auge, com tarifas americanas sobre produtos chineses escalando para 145% e a retaliação da China atingindo 125% sobre bens dos EUA. Pequim, excluída da "pausa" tarifária de 90 dias concedida por Donald Trump à maioria dos países, já declarou estar disposta a "lutar até o fim" e acusou os EUA de violar regras da OMC.

A China detém a segunda maior posição em dívida americana no mundo: impressionantes R$ 4,41 trilhões (US$ 760 bilhões, cotação R$ 5,80), ficando atrás apenas do Japão (R$ 5,8 trilhões / US$ 1 trilhão). A teoria da "opção nuclear" envolve a China "despejar" esses títulos no mercado – vendendo-os agressivamente, mesmo abaixo do valor – para forçar uma desvalorização do dólar. Alex Jacquez, do think tank econômico Groundwork Collective, alerta que, à medida que as barreiras tarifárias se tornam proibitivas, "a única fonte de escalada se torna ferramentas retaliatórias mais extremas", como liquidar a dívida americana, o que "poderia ter não apenas consequências domésticas, mas globais, e realmente imprevistas".

James Mohs, professor na University of New Haven, observa em entrevista à Al Jazeera que mesmo a China comprando mais dívida nova emitida pelos EUA poderia "enfraquecer nossa estrutura econômica" e o dólar pelo excesso de endividamento. No entanto, usar a "opção nuclear" de venda massiva é uma faca de dois gumes: prejudicaria também a China, desvalorizando suas próprias reservas em dólar e fortalecendo o yuan, encarecendo suas exportações vitais. Apesar disso, com uma posse total estimada (Estado e bancos domésticos) de cerca de R$ 17,4 trilhões (US$ 3 trilhões) em dívida americana, Pequim possui uma inegável alavancagem sobre a moeda americana.

Diante de tal cenário, o Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, poderia intervir com Flexibilização Quantitativa (QE) – comprando títulos massivamente para injetar dinheiro e estabilizar taxas, como fez na pandemia. Contudo, a tomada de decisão do Fed está "em fluxo", segundo Jacquez, dada a imprevisibilidade diária das ações de Trump. O Morgan Stanley prevê que o Fed não fará cortes de juros este ano. Enquanto isso, há uma notável discrepância nos números oficiais: Trump alega que as tarifas rendem R$ 11,6 bilhões (US$ 2 bi) por dia aos cofres americanos, mas dados do Departamento do Tesouro dos EUA indicam uma arrecadação de R$ 1,16 bilhão (US$ 200 mi) diários.

Longe das altas finanças e da geopolítica, o impacto já é sentido pelo cidadão comum. A confiança do consumidor americano está em queda livre. O índice da Universidade de Michigan, divulgado hoje (considerando a data original da notícia), mostrou uma queda de 11% em relação ao mês passado. Dados do The Conference Board, do final do mês passado, já apontavam a confiança na mínima de 12 anos. "Se cada manchete que eles [consumidores] veem é negativa, e há ameaças de opções nucleares pela China ou outros parceiros comerciais, os consumidores vão começar a conter os gastos", conclui Jacquez. A "guerra" de tarifas e ameaças, mesmo sem o uso da "bomba" da dívida, já causa danos reais.

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