Crise Diplomática Velada: Modi Alerta Bangladesh Contra 'Retórica' e Yunus Cobra Extradição de Ex-Premiê em Meio à Sombra Chinesa
Nos bastidores da sexta cúpula da BIMSTEC (Iniciativa da Baía de Bengala para Cooperação Técnica e Econômica Multissecotorial) em Bangkok, um encontro de alta tensão ocorreu nesta sexta-feira. Pela primeira vez desde a turbulenta mudança de governo em Dhaka, o Primeiro-Ministro da Índia, Narendra Modi, e o conselheiro-chefe do governo interino de Bangladesh, Muhammad Yunus, sentaram-se para uma reunião bilateral. As relações tensas entre os vizinhos sul-asiáticos são palpáveis desde que a ex-Primeira-Ministra Sheikh Hasina foi forçada a renunciar em agosto do ano passado, após protestos em massa, e subsequentemente buscou refúgio na Índia.
Segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores da Índia, Modi expressou o desejo de Nova Delhi de "forjar uma relação positiva e construtiva com Bangladesh baseada no pragmatismo". No entanto, o recado foi claro: "é melhor evitar a retórica prejudicial que vicia o ambiente". O líder indiano também levantou preocupações sobre travessias ilegais de fronteira e reiterou a apreensão da Índia quanto à "segurança das minorias em Bangladesh, incluindo hindus".
Do lado de Bangladesh, o comunicado oficial descreveu a troca como "franca, produtiva e construtiva". Yunus, segundo nota em sua página oficial no Facebook, afirmou que "Bangladesh valoriza profundamente sua relação com a Índia", destacando a "amizade profundamente enraizada (...) fundada em histórias entrelaçadas, proximidade geográfica e afinidade cultural". Em um gesto simbólico, presenteou Modi com uma fotografia do encontro anterior deles, em janeiro de 2015.
Contudo, por trás da diplomacia, a tensão era evidente. O comunicado de Dhaka revelou que Yunus questionou Modi sobre o status do pedido de extradição de Sheikh Hasina. O governo interino busca levá-la a julgamento por acusações gravíssimas, incluindo assassinato, tortura, sequestro, crimes contra a humanidade e genocídio, supostamente cometidos por ela e membros de seu antigo governo. A Índia não comentou publicamente o pedido. Na reunião, Yunus reiterou a acusação de que Hasina tem feito "observações inflamatórias" na mídia e tentado "desestabilizar a situação em Bangladesh".
As fricções recentes vão além da questão Hasina. Na semana passada, Yunus gerou controvérsia ao promover Bangladesh como parceiro comercial e logístico para a China, chegando a afirmar que seu país é "o único guardião" da Baía de Bengala. A declaração foi criticada na Índia. O Ministro das Relações Exteriores indiano, S. Jaishankar, respondeu na quinta-feira, durante a cúpula da BIMSTEC, lembrando que a Índia possui a costa mais longa na Baía de Bengala (quase 6.500km), compartilha fronteiras com a maioria dos membros do bloco e serve como principal interface entre o subcontinente indiano e a ASEAN.
A aproximação de Yunus com Pequim se materializou em ações concretas. Durante sua recente visita à China e encontro com o Presidente Xi Jinping, Dhaka e Pequim assinaram um acordo para modernizar o porto de Mongla, o segundo maior de Bangladesh. O timing é significativo: em julho de 2024, apenas um mês antes da queda de Hasina, a Índia havia garantido os direitos operacionais de um terminal justamente em Mongla.
Segundo reportagem do diário bengalês Business Standard em fevereiro deste ano (2025), o projeto de modernização do porto de Mongla tem previsão de conclusão até dezembro de 2028, com um custo total estimado em US$ 33 milhões (aproximadamente R$ 191,4 milhões), envolvendo um empréstimo de US$ 29 milhões (R$ 168,2 milhões) da China. A reportagem não mencionou a Índia, levantando dúvidas sobre a continuidade da participação indiana no projeto portuário estratégico.
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