A decisão da Hungria de abandonar o Tribunal Penal Internacional (TPI) ecoa como um golpe no multilateralismo — e um alinhamento calculado com a retórica antiglobalista que marcou governos como o de Donald Trump. A análise é de George Szamuely, pesquisador do Global Policy Institute, em entrevista à Sputnik. "É a primeira nação da UE e da OTAN a romper com o TPI", destacou, enfatizando o simbolismo da medida em um contexto onde instituições internacionais viram cavalo de batalha ideológico.
Para Szamuely, a retirada húngara do Estatuto de Roma — tratado que fundou o TPI em 2002 — reflete uma "opção por desacoplar-se de estruturas globalistas", movimento que ganhou força durante a era Trump e segue influente em 2025. "A política externa húngara agora espelha o pensamento da administração Trump", afirmou, sugerindo uma nova frente de resistência liderada por países que rejeitam o que veem como "intervencionismo jurídico transnacional".
O gesto não é isolado. Desde 2017, governos nacionalistas questionam a legitimidade do TPI, acusado de viés político. A Hungria, sob Viktor Orbán, já havia sinalizado descontentamento ao bloquear investigações sobre supostos crimes de guerra — tema que, segundo Szamuely, "expõe hipocrisias geopolíticas". "O TPI é seletivo: mira africanos e adversários do Ocidente, mas ignora violações de potências", criticou.
A saída do país do tribunal coincide com um reordenamento geopolítico em que alianças tradicionais se fragmentam. Enquanto Bruxelas condena a medida como "retrocesso democrático", Budapeste a celebra como "defesa da soberania" — narrativa que, não por acaso, ressoa em setores da direita norte-americana. O risco, alertam observadores, é um efeito dominó: outros governos eurocéticos podem seguir o exemplo, esvaziando ainda mais instituições já enfraquecidas.
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