Em seu derradeiro discurso antes de falecer aos 88 anos, Papa Francisco transformou o Domingo de Páscoa em um apelo urgente: "Chamem um cessar-fogo em Gaza!". A mensagem, proferida diante de 20 mil fiéis na Praça São Pedro, contrastou com a indiferença global diante do extermínio de mais de 51,2 mil palestinos desde outubro de 2023.
Entre Eufemismos e Realidades Sanguinolentas
A escolha de palavras do pontífice – "conflito terrível" para descrever um genocídio – revelou o equilíbrio frágil entre diplomacia e denúncia. Mesmo assim, seu recado ecoou como um raio em céu claro: "Libertem os reféns, acabem com a fome planejada", exigiu, em referência ao bloqueio israelense a ajuda humanitária iniciado em março.
Horas antes de morrer, Francisco recebeu JD Vance, vice-presidente dos EUA, arquiteto de políticas migratórias que ele próprio classificou como "crise que fere a dignidade humana". A ironia não passou despercebida: o mesmo país que financia U$ 15bilhões em armas para Israel (cerca de R$ 85,5 bilhões) também persegue imigrantes que sustentam sua economia.
Páscoa Sob Bombas e Arame Farpado
Enquanto o Vaticano se despedia de seu líder, cristãos palestinos celebravam a ressurreição em Igreja de São Porfírio, em Gaza – alvo de bombardeios em 2023 que mataram 18 refugiados. Na Cisjordânia, apenas 6 mil fiéis conseguiram permissão para acessar a Basílica do Santo Sepulcro, cercada por tanques israelenses. Até o enviado do Vaticano foi barrado.
Um Sistema que Alimenta a Carnificina
A crítica final do Papa escancarou o cinismo geopolítico: "A paz é impossível num mundo que lucra com o desprezo". Uma sentença que desnuda desde a indústria bélica até as fronteiras militarizadas dos EUA. Seu apelo, porém, esbarra na lógica perversa de que "contempto dá lucro" – seja em Gaza ou nas deportações em massa.
Francisco partiu deixando uma pergunta no ar: quantas Páscoas sob escombros serão necessárias para que seu chamado ecoe além dos muros do Vaticano?
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