O Legado de uma Década: Uruguai e a Metamorfose da Cannabis
Ao longo das praias, parques e arquibancadas uruguaias, o aroma da cannabis, outrora clandestino, diversificou-se em nuances desde que o Uruguai se erigiu como pioneiro na legalização do consumo recreativo da planta. Dez anos após o histórico aval parlamentar de 2013, o país sul-americano é palco de uma tapeçaria complexa de transformações sociais e econômicas, que reverberam além de suas fronteiras.
O cenário regulatório desdobrou-se em fases. A partir de 2014, emergiram os cultivadores caseiros e clubes de produção, que, sob regulamentação, podem produzir até 480 gramas anuais por residência ou membro. Não foi senão em 2017 que farmácias começaram a comercializar a substância, estabelecendo um mercado legal que se desdobrou em múltiplas direções.
Rosario Queirolo, politóloga e docente da Universidade Católica do Uruguai, pondera sobre os avanços e desafios desse panorama. Enquanto celebra a ascensão de um mercado legal e seus controles de qualidade, ela observa que as metas iniciais, como a contenção do narcotráfico e a melhoria da segurança pública, mostraram-se ambiciosas demais em sua concretização prática.
Números delineiam essa complexidade. Dos 86.207 usuários registrados, estima-se que 66% daqueles que consomem, maiores de 18 anos, permanecem à margem do sistema regulamentado. Uma pesquisa da empresa Cifra revelou que 19% dos uruguaios maiores de 16 anos retomaram o consumo após a legalização, quase o dobro do índice de 2016.
Outro ponto de inflexão reside na comercialização. Apenas 7 em cada 10 usuários registrados optam pelas farmácias estatais. O preço médio de um pacote de cinco gramas da variedade "gama" é de 460 pesos uruguaios, uma cifra notavelmente inferior aos padrões globais.
O mercado de exportação também floresce. Empresas uruguaias faturaram 5,3 milhões de dólares em 2022 com a venda de 16 toneladas de flores, predominantemente para uso medicinal em países como Portugal, Alemanha e Canadá.
Quanto ao respaldo público, uma pesquisa da Cifra de 2022 apontou que 48% dos uruguaios apoiam a legislação, um aumento significativo em uma década, refletindo uma gradual normalização do tema na vida cotidiana.
No entanto, o cenário não é homogêneo. Desafios persistem, desde a integração de consumidores ao mercado legal até a adequação de políticas públicas às realidades em mutação. A experiência uruguaia com a cannabis é uma narrativa em constante evolução, uma síntese das tensões entre regulação, mercado e sociedade em um mundo em transformação.
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