Desigualdade Rural: O 'Boom' do Agro nas Mãos dos Super-Ricos
O crescimento exponencial do setor agropecuário no Brasil revelou-se um impulsionador notável da desigualdade, com os super-ricos, representando apenas 0,01% da população, liderando os ganhos, conforme indicado por um estudo recente da Fundação Getulio Vargas divulgado em 16 de janeiro. A análise, baseada em dados de declarações de Imposto de Renda fornecidas pela Receita Federal, destaca que essa elite viu sua renda oriunda da atividade rural aumentar extraordinários 248% em um período de cinco anos, de 2017 a 2022.
O Agronegócio como Catalisador da Desigualdade
Produzido pelo renomado economista Sérgio Wulff Gobetti, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA), o estudo aponta a agropecuária como um fator crucial no aumento da desigualdade no país. Nenhuma outra atividade analisada demonstrou um aumento tão substancial nos ganhos da elite como a renda proveniente do setor agropecuário.
O agro, que representava cerca de 3,3% dos ganhos anuais dos super-ricos em 2017, expandiu sua influência para 5,9% em 2022, segundo dados da Receita Federal. Esse aumento considerável destaca a crescente importância do setor para a elite econômica brasileira.
Investimentos dos Super-Ricos na Terra
Gesmar Rosa dos Santos, doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília (UnB), observa que as altas receitas do agro atraíram até mesmo os super-ricos urbanos para investirem na atividade. "As maiores rendas da agropecuária, assim como a posse das maiores propriedades e das melhores terras, estão em poder de agentes econômicos que vivem nas cidades", destacou.
Motivos do Crescimento Expressivo
Especialistas, como o economista e engenheiro agrônomo José Giacomo Baccarin, apontam o "boom" do mercado agrícola como um fator determinante para o crescimento excepcional da renda dos super-ricos. O aumento significativo nos preços dos produtos alimentícios entre 2017 e 2022, que incluiu anos de pandemia, impulsionou os ganhos dos produtores rurais e, consequentemente, acentuou a desigualdade.
O Índice de Preços Reais de Alimentos da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) evidencia um aumento de 46% nos preços globais dos alimentos entre 2017 e 2022. No Brasil, o aumento foi de 11,64% apenas em 2022, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Desigualdade na Distribuição de Terras e Benefícios Tributários
André Roncaglia, economista e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ressalta que a desigualdade na posse de terras concentra a renda gerada pela agricultura entre os super-ricos. A pesquisa de Gobetti revela que os 0,01% mais ricos do Brasil, que se beneficiaram significativamente do crescimento agropecuário, têm uma renda mensal de R$ 2,1 milhões, em comparação com a média nacional de R$ 3,6 mil por mês.
Gobetti também destaca a baixa tributação da renda agrícola no país, tornando-a mais atrativa para os super-ricos. Mauro Silva, presidente da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Unafisco), acrescenta que os produtores rurais desfrutam de benefícios tributários não estendidos a outros profissionais, como a adoção de apenas 20% da receita como base para tributação.
Desafios e Perspectivas
Pedro Faria, economista e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destaca a contradição na tributação da agricultura, uma atividade que gera poucos empregos. Ele argumenta que a tributação deveria se concentrar no lucro ou renda dos produtores rurais, atualmente pouco taxados.
Débora Nunes, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), adiciona que a atividade agrícola utiliza bens comuns para sua produção e sugere uma distribuição mais equitativa dos ganhos. "A atividade rural tem se tornado uma das principais formas de concentração e aumento da renda dos super-ricos porque transforma bens da natureza, que deveriam estar a serviço da humanidade, em mercadoria", argumentou.
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